Ainda Estou Aqui (2024) | Crítica


Sobre o Filme:


Ainda Estou Aqui é um filme brasileiro de drama biográfico que foi dirigido por Walter Salles e lançado em 2024 pela Sony Pictures. Foi baseado no livro de mesmo nome, publicado em 2015 por Marcelo Rubens Paiva.

O filme acompanha a história real de Eunice Paiva (Fernanda Torres), uma mulher que vive com o marido e os cinco filhos no Rio de Janeiro no início da década de 1970. A rotina da família é comum e tranquila até o dia em que seu marido é levado por agentes do regime militar para prestar um depoimento e não retorna para casa.

A partir desse momento, o filme acompanha o dia a dia de Eunice enquanto ela tenta entender o que aconteceu, buscar informações e cuidar dos filhos sozinha. Ela enfrenta interrogatórios, visitas a órgãos oficiais e a falta de respostas concretas, enquanto precisa manter a casa funcionando e proteger as crianças da situação.

Com o passar do tempo, a trama mostra as mudanças na vida da família diante da ausência permanente do pai. Eunice precisa tomar decisões práticas, reorganizar sua vida e encontrar maneiras de seguir em frente, enquanto lida com a espera, a incerteza e a adaptação a uma nova realidade.



Minha Opinião:


Eu estava muito ansiosa para assistir esse filme quando ele estreou nos cinemas e começou a ser muito comentado nas redes sociais, não apenas por causa da sua qualidade altíssima, mas também porque estava participando de várias premiações e vencendo. Eu só fui ter a oportunidade de assistir quando estreou no streaming e de fato pude comprovar a história impactante que ele tem e como merecia todos os prêmios, uma qualidade absurda e brasileira!

Ainda Estou Aqui se constrói como um drama histórico intimista, optando por uma abordagem contida e profundamente humana para retratar os impactos da ditadura militar na vida de uma família brasileira de classe média. Em vez de recorrer a cenas explícitas de violência ou discursos políticos diretos, o filme escolhe o silêncio, a ausência e a espera como motores narrativos. Essa decisão fortalece o peso emocional da história e aproxima o espectador da vivência cotidiana de quem ficou. A narrativa avança de forma gradual, respeitando o tempo psicológico da protagonista. O resultado é um filme denso, mas acessível, que prende mais pela sensibilidade do que pelo choque.

O ritmo é deliberadamente pausado, refletindo a estagnação e a incerteza vividas pela família. Não há pressa em resolver conflitos, porque o próprio contexto histórico não oferece resoluções fáceis. A ambientação dos anos 1970 é precisa e discreta, sem exageros estéticos. Tudo contribui para uma experiência imersiva e coerente com a proposta do filme.


A atuação da Fernanda Torres como Eunice Paiva é um dos grandes pilares da obra, sustentando a narrativa com uma performance contida e extremamente expressiva. Sua personagem raramente verbaliza seus sentimentos, mas eles transparecem em gestos, olhares e pequenas atitudes do dia a dia. O filme confia na força de sua atuação para comunicar dor, cansaço e determinação. Foi mais do que merecido ela ter ganhado o Globo de Ouro 2025 como Melhor Atriz de Drama em Filme e ter sido indicada ao Oscar 2025 como Melhor Atriz (segunda atriz brasileira na história a concorrer nessa categoria, depois de sua própria mãe, Fernanda Montenegro).

Do ponto de vista temático, Ainda Estou Aqui dialoga com memória, perda e sobrevivência sem transformar esses temas em discurso didático. Ele mostra como grandes eventos históricos atravessam vidas comuns de forma silenciosa e devastadora. A força do filme está justamente em mostrar o impacto do regime não apenas no corpo, mas na estrutura familiar e emocional. É um retrato que amplia o entendimento do período histórico ao focar no indivíduo. A história pessoal se torna um reflexo coletivo.


Enfim, é um filme forte, sensível e necessário, que permanece na mente mesmo após o término. Não é uma obra fácil ou confortável, mas é honesta e respeitosa com o tema que aborda. A emoção surge de forma natural, sem apelos exagerados. Para quem aprecia dramas humanos e narrativas históricas intimistas, Ainda Estou Aqui é uma experiência marcante.

Além do mais, Ainda Estou Aqui fez história ao se tornar o primeiro filme brasileiro a vencer a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025, um feito muito esperado e mais do que justo!



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Direção: Walter Salles
Distribuição: Sony Pictures
Ano: 2024
Duração: 2h15min
Gênero: Biografia, Drama

Sinopse: Durante a ditadura militar no Brasil, a vida da família Paiva muda drasticamente quando Rubens Paiva, engenheiro e ex-deputado, desaparece após ser levado por agentes do regime. A narrativa acompanha Eunice Paiva, sua esposa, que se vê obrigada a assumir sozinha a criação dos filhos enquanto enfrenta o silêncio e a repressão do Estado. Entre memórias do passado e a dura realidade do presente, o filme retrata a força do cotidiano familiar diante da ausência. A história se constrói a partir da espera, da resistência e da luta por respostas. Ainda Estou Aqui é um drama íntimo sobre memória, amor e perseverança em tempos de violência política.


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